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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Desiguais na vida e na morte

JURANDIR FREIRE COSTA
ESPECIAL PARA A FOLHA

A morte de Ayrton Senna comoveu o país. O desalento foi geral. Independente do "big carnival" da mídia, todos perguntavam o que Senna significava para milhões de brasileiros. Por que a perda parecia tão grande? O que ia embora com ele?

Dias depois, uma mulher morreu atropelada na avenida das Américas, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Ficou estendida na estrada por duas horas. Como um "vira-lata", disse um jornalista horrorizado com a cena! Neste meio tempo, os carros passaram por cima do corpo, esmagando-o de tal modo que a identificação só foi possível pelas impressões digitais. Chamava-se Rosilene de Almeida, tinha 38 anos, estava grávida e era empregada doméstica.

Efeito paroxístico do apartheid simbólico que fabricamos, pode-se dizer. De um lado, o sucesso, o dinheiro, a excelência profissional, enfim, tudo que a maioria acha que deu certo e deveria ser a cara do Brasil; do outro, a desqualificação, o anonimato, a pobreza e a promessa, na barriga, de mais uma vida severina.

O brasileiro quer ser visto como sócio do primeiro clube e não do segundo. Senna era um sonho nacional, a imagem mesma da chamada classe social "vencedora"; Rosilene era "o que só se é quando nada mais se pode ser", e que, portanto, pode deixar de existir sem fazer falta. Luto e tristeza por um; desprezo e indiferença por outro. Duas vidas brasileiras sem denominador comum, exceto a desigualdade que as separava, na vida como na morte.

Penso que esta interpretação é correta mas não esgota o sentido dos acontecimentos. Valor diferencial dos indivíduos, segundo a hierarquia de classe, sempre existiu. A vida dos ricos e poderosos sempre foi tida como "mais vida" do que a dos miseráveis. A questão é a ferocidade com que isto, agora, se apresenta. As mortes de Senna e Rosilene mostram, além da divisão social de privilégios, a progressiva privatização ou particularização dos ideais morais.

A insistência em tornar Senna um herói nacional é a contrapartida do absurdo descaso com que tratamos a vida dos mais humildes. O que nele era admirável pertencia à esfera das virtudes privadas. Virtudes perfeitamente conciliáveis com as virtudes públicas, mas que não podem vir a substituí-las, porquanto pessoais e intransferíveis. Talento e vocação para habilidades específicas não se aprende no colégio. Todos podemos ser bons ou excelentes cidadãos; só alguns podem ser bons padeiros, professores, poetas ou desportistas. Um país obrigado a ter num grande corredor de automóveis o motivo único do orgulho nacional é um pobre e triste país.

O problema –fique bem claro!– não é discutir o incontestável mérito de Senna. O problema é saber como pessoas que provavelmente choraram sua morte foram capazes, pouco depois, de esmagar uma mulher como quem pisa numa barata! Cada dia mais, somos levados a crer que "humano como nós" são apenas aqueles com nossos hábitos de consumo, nossos estilos paroquiais de vida, nossas características físicas, nossas preferências sexuais etc.

Estamos nos convertendo a uma sociedade de "minorias" que discriminam ou são discriminadas, mas que se mostram igualmente incapazes de entender que um mundo humano, como o que conhecemos, só pode existir enquanto durar a ideia de "Homem". Além de "unidimensionais", como dizia Marcuse, estamos nos tornando "parciais e parcializados" na maneira como construímos nossa identidade.

Já não nos identificamos como seres morais, cujos semelhantes são todos aqueles capazes de falarem e distinguirem o bem do mal. Humanos são os que ostentam os mesmos objetos que possuímos; que aspiram ou alcançam o sucesso mundano que nos deixa em transe ou que exibem as marcas corpóreas que temos ou queremos ter. Os outros nada são.

A honra que coube a Senna era justa e legitimamente devida. Mas torná-lo um "ideal" de "identidade nacional", como muitos pretenderam, é fazer de sua memória caricatura de nossa incompetência cívica e humana. No nível da cidadania, a excelência é outra. É saber como impedir que outras "Rosilenes" sejam trituradas como lixo no asfalto, pelos possíveis amantes de corrida de automóveis.

É esse o "x" do problema: mostrar que qualquer vida, pobre ou rica, famosa ou anônima, deve ser respeitada como um bem em si. O mais é exploração comercial inescrupulosa da vida e da morte dos melhores e mais honrados.

Fonte: Folha de S. Paulo publicado em 25/05/2004.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

DOCVERDADE - Documentários: Video Temporário: Entrevista com Darcus Howe

Quem é Darcus Howe?



É apenas um imigrante negro que vive há várias décadas em Londres e vê seus filhos sendo humilhados periodicamente pela polícia. A entrevista da BBC foi pega de surpresa ao tentar tratar dos distúrbios sociais na Inglaterra e teve que se livrar de algum modo do entrevistado. A rede de TV e rádio, considerada uma das melhores do mundo, fez nesse instante o papel do "Establishment" ao tratar desse assunto interno. Portou-se de forma infantil e hipócrita frente à sabedoria de um cidadão comum.

Fonte: DOCVERDADE

quarta-feira, 10 de março de 2010

Vida Maria

Este filme nos mostra que a primeira instituição responsável pela transmissão da cultura é a família; a aquisição e a perpetuação da cultura, portanto, é um processo social, resultante da aprendizagem. Cada sociedade transmite às novas gerações o patrimônio cultural que recebeu de seus antepassados. Por isso, a cultura é também chamada de herança social.

Para a antropóloga norte-americana Ruth Benedict (1887-1948), "a história da evolução de um indivíduo é, antes de mais nada, o relato de sua acomodação aos padrões e tradições vigentes em sua comunidade. Desde o momento em que ele nasce, os costumes do grupo a que pertence moldam suas experiências e seu comportamento. As primeiras palavras de uma criança são necessariamente pronunciadas em uma língua determinada. Por isso mesmo, essa criança já é um produto da cultura em que vive. Ao tornar-se adulta, já está suficientemente treinada para tomar parte nas atividades da comunidade, com seus hábitos e suas crenças."



Acompanhamos Maria durante o seu trabalho no sítio onde vive. Vai dos 5 aos 45 anos e passa todo seu estilo de viver para sua filha Lurdes. O filme mostra ciclos de vida que muitas vezes ficamos.

sábado, 6 de março de 2010

LEVANTE A SUA VOZ !

Vídeo produzido pelo Intervozes Coletivo Brasil de Comunicação Social com o apoio da Fundação Friedrich Ebert Stiftung remonta o curta ILHA DAS FLORES de Jorge Furtado com a temática do direito à comunicação. A obra faz um retrato da concentração dos meios de comunicação existente no Brasil.

Este curta também faz uma crítica de como a mídia interfere na formação dos valores e identidades, pois, os meios de comunicação de massa moldam hoje  as ideias e opiniões de grupos cada vez maiores de indivíduos e no processo de globalização vem promovendo em todo o mundo a massificação, a homogeinização e a padronização cultural.

A exclusão social tem levado as minorias organizadas a passar do discurso à ação política, reafirmando sua própria identidade e buscando seus direitos na sociedade democrática e são marginalizados e impedidos de levantar a sua voz!

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Público e Massa



Existe uma certa semelhança entre público e massa, pois, também os componentes da massa estão unidos por um estímulo. Mas há uma direrença importante: ao contrário da massa, o público não tem uma atitude passiva diante da mensagem que recebe; ele opina,por meio de palmas, críticas e discussões.


O público não apenas recebe opiniões, mas também exprime a sua. Isso em geral não ocorre com a massa.

Por exemplo, ao assistir a um comício, as pessoas podem aprovar as idéias de um político com palmas, ou reprová-las por meio de vaias e protestos. Algumas delas podem até mesmo externar suas opiniões no meio do público.

Numa sociedade de massa, o tipo de comunicação que predomina é aquele transmitido pelos veículos de comunicação de massa.

Por exemplo, um fabricante de sabonetes ao anunciar seu produto na televisão, não está procurando divulgá-lo para um conjunto específico de pessoas concretas, com sexo, cor, instrução ou idade, mas para as que estão diante da tela naquele momento e que, atingidas pela mensagem, eventualmente poderão comprar seu produto, muitas vezes sem necessidade imediata.


Líderes demagógicos podem fazer o mesmo. Através de mecanismos de comunicação de massa podem induzir milhares de pessoas a comportamentos emotivos e irracionais, sem refletir sobre as mensagens que estão recebendo. Ao agir dessa forma, o demagogo não objetiva transmitir suas idéias ao cidadão esclarecido, mas a uma massa incorpórea, informe, sem identidade.

De modo geral, podemos dizer que o grupo de indivíduos que se comporta como massa tende a ser manipulado, pois, na maioria das vezes, reage de forma espontânea, impensada, sem ter consciência de grupo.



Fonte: OLIVEIRA, Pérsio Santos. Introdução à Sociologia.São Paulo, Ática, 2004.




segunda-feira, 6 de julho de 2009

UMA BREVE HISTÓRIA DO MACACO ( OU DO HOMEM?)

Um grupo de cientistas colocou cinco macacos numa jaula. No meio da jaula, uma escada e sobre ela, um cacho de bananas. Quando um macaco subia na escada para pegar as bananas, os cientistas jogavam um jato de água fria, não no que subia, nos que estavam no chão. Depois de alguns jatos d'água, quando um macaco tentava subir a escada, os outros o espancavam. Com mais algum tempo, nenhum macaco subia mais a escada, apesar da tentação das bananas.

Então, os cientistas substituíram um dos macacos por um novo. A primeira coisa que o novato fez foi, logicamente, subir a escada. Mas foi imediatamente surrado pelos outros. Depois de algumas surras, o novo integrante do grupo também não subia mais na escada. Em seguida, os cientistas substituíram outro macaco. Claro, o novato foi direto tentar subir a escada. E claro, foi espancado por todos os outros, inclusive por aquele primeiro macaco trocado.

E assim foi, macaco a macaco, os cientistas substituíram todos por novos integrantes. No final de tudo, o grupo de cinco macacos, todos trocados, mesmo nunca tendo tomado um único banho frio, continuavam batendo em qualquer um que tentassem pegar as bananas.

Se desse para a gente perguntar para algum deles porque eles espancavam quem tentasse subir a escada, provavelmente um deles ia responder: “não sei, só sei que sempre foi assim.”

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Uma das grandes contradições da sociedade contemporânea consiste no fato de que a revolução tecnológica colocou nas mãos do ser humano meios de comunicação cada vez mais sofisticados (redes de computadores, telefones celulares etc.), mas isso não tem contribuído para o enriquecimento dos contatos sociais e das relações humanas. pelo contrário, tem acentuado a tendência à solidão.
O convívio humano que resulta de contatos primários é a característica dominante das sociedades pouco industrializadas, das zonas rurais ou de pequenos grupos sociais. A industrialização e a urbanização estabeleceram um modo de vida no qual o contato primário, interpessoal, foi reduzido, favorecendo a generalização dos contatos secundários e das relações impessoais.
Observa-se, assim, uma tendência inversa entre a formação de grandes aglomerados populacionais e o convívio humano. A instauração da sociedade de consumo e da sociedade de massa se constitui num marco decisivo para o surgimento de um ser humano massificado.
Nesse modelo social, o ser humano deixa de ser considerado pessoa e passa a ser encarado como máquina devoradora de produtos, idéias ou mercadorias. Não se consideram valores pessoais ou anseios individuais. Por um processo de condicionamento gradual irreverssível, vão sendo determinados seus anseios, de acordo com asnecessidades de reprodução do sistema. Sua personalidade vai se transformando e seu comportamento se adaptando no sentido de atender aos objetivos dessa nova ordem. O ser humano deixa de ser um indivíduo e passa a ser apenas uma entidade numérica, parte de uma grande engrenagem, da qual é um simples objeto.
O homem vive no meio da multidão, mas não convive com ninguém, como pessoa; a multidão nas ruas, o congestionamento no trânsito, a moradia em apartamentos superpostos, as turbas nos estádios esportivos e os enxames humanos nas praias são manifestações sociais frequentes. nelas, raramente se verifica o convívio humano; mesmo asrelações mais íntimas são, muitas vezes, mero contato de objetos humanos e não relações interpessoais. os indivíduos não se encaram mais como pessoas, mas como objetos. Nesse contexto cresce a sensação de solidão.

Fonte: OLIVEIRA, Pérsio S. (2001), Introdução à sociologia. São Paulo, Ática.


Para refletir: Quais as principais diferenças de comportamento entre pessoas que vivem numa sociedade tradicional e as que vivem nas sociedades pós-industriais?


Vamos! Comente!


segunda-feira, 23 de março de 2009

Assista, reflita . . . e comente!

O Bicho

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

Manuel Bandeira